terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Ensaio

Me perdoe pelas letras embaraçadas. Tento organizá-las para ensaiar aquele texto que me pediste de madrugada sobre a nossa história, mas creio difícil essa missão. Primeiro, porque não sou escritora nem poeta, não narro fantasias nem crio ficções, pois escrevo quase que cirurgicamente afim de operar certas angústias, que na medicina comum não podem sair do peito, daí estanco cada uma delas pelo verbo. Segundo, porque da nossa história quase não sei, talvez seja pelo meu descuido em não conseguir repousar meus olhos nos seus por muito tempo e de não me permitir acompanhar seus passos bêbados por ai. Você sabe que já tentei me atirar no precipício dos seus olhos, mas quando cheguei lá, o abismo entre nós foi maior do que pude suportar. Sei mais dos desencontros e das lembranças turvas que ficam na memória, dessa sensação de frio na boca do estômago, das ligações no escuro, das traças que nos observavam na biblioteca, da sensação de quase ser sua e me lembrar que não era, de correr pra te alcançar e te ver sumindo em meio a fumaça de uma casa cheia. Outros poetas já cantaram minhas quase aventuras com você. Já espalharam pelos sete cantos que me apaixonei pelos seus erros. Divulgaram em horário nobre da rádio que naquele dia você chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar e me olhou de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar. Sem nenhuma vergonha, cantaram que seu calor gravou em mim cicatrizes risonhas e corrosivas. Publicaram versos que deveriam ser meus, mas por falta de sorte, não foram. Sabe, já não sei lidar com essa chama que você acende com qualquer sopro doce e que depois tenho que sufocar sozinha pra não arriscar incêndios que não vou conseguir apagar. Tá vendo aqui, essas frases soltas? Essa bagunça que parece não fazer rima nem prosa? É tudo que sei sobre nossa história. Sei que na alquimia do nosso encontro podia surgir ouro, mas as vezes só me resta o pó. Sei que não me pertence o tempo e espaço que fico nos seus braços. Sei que sua risada tem sabor quando escuto e que sua partida nem herança vai deixar. Sei de tudo entre nós que não é. Me perdoe pelas letras embaraçadas.

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